Depois do “hype”: quando a inovação encontra maturidade

Quem trabalha com inovação provavelmente já ouviu falar do conceito Hype Cycle, criado em 1995 por Jackie Fenn, da consultoria Gartner¹, para representar as etapas típicas de adoção de tecnologias, desde o entusiasmo inicial até a maturidade real da aplicação com valor comprovado.

Esse ciclo ajuda a entender por que tantas ideias surgem com altas expectativas e muitas especulações, mas apenas algumas conseguem transformar de fato a sociedade e os negócios. Basta observar fenômenos recentes, como a inteligência artificial generativa: depois de um início marcado por entusiasmo global, o debate agora se volta à necessidade de transformar expectativas em aplicações concretas, com foco em casos de uso que tragam valor tangível para organizações e consumidores.

Importante lembrar que o Hype Cycle não é uma previsão, mas uma lente de análise. Ele ajuda empresas, reguladores e até consumidores a diferenciarem o que é tendência passageira do que pode se consolidar em impacto real. Não por acaso, conceitos como a Everyday AI (“IA no dia a dia”) e a Digital Employee Experience (DEX) já aparecem em estágios avançados desse ciclo, sinalizando que, em menos de dois anos, devem alcançar adoção mais ampla. Podemos observar isso na agilidade com que a IA deixou de ser um recurso experimental e passou a fazer parte do cotidiano de empresas e pessoas.

Outras inovações que já percorreram esse caminho incluem impressão 3D, realidade virtual e blockchain: todas viveram fases de euforia seguidas por períodos de ajuste e questionamento sobre quais seriam seus usos de fato no dia a dia. O ponto central é que a curva não representa fracasso, mas amadurecimento. Quando a poeira baixa, os usos reais emergem, e é aí que ocorre a verdadeira transformação.

Em empresas como a Visa, é possível vivenciar esse processo em torno das stablecoins, um tipo de moeda digital projetada para manter valor estável. Na maioria dos casos, elas são lastreadas em moedas fiduciárias, como o dólar ou o euro, ou em commodities, como o ouro. Essa ancoragem as diferencia das criptomoedas tradicionais, que costumam apresentar forte volatilidade, possibilitando que as stablecoins sejam mais seguras e práticas para pagamentos e transações do dia a dia.

Em 2024, muito se especulou sobre o papel que elas poderiam ter nos meios de pagamento, mas a falta de dados consistentes dificultava separar ruído de realidade. Foi nesse contexto que Visa, em parceria com a empresa Allium² , lançou o “Visa Onchain Analytics Dashboard”, uma ferramenta aberta que organiza dados de stablecoins em um só lugar. O objetivo é apoiar reguladores, bancos e empresas a enxergar onde existe atividade econômica concreta e onde ainda há lacunas de maturidade.

Esse é um exemplo de como organizações podem atuar de forma pragmática durante o ciclo de hype: em vez de alimentar altas expectativas, é possível criar instrumentos que tragam transparência e apoiem a evolução saudável do ecossistema. A análise onchain mostra que stablecoins têm potencial para suportar pagamentos de forma eficiente, mas esse caminho depende de dados, governança e clareza sobre valor real.

No fim, o Hype Cycle não deve ser visto como uma curva de decepção, mas como um mapa de maturidade tecnológica. Ele nos lembra que é natural superestimar o curto prazo e subestimar o longo prazo. Cabe a nós, líderes de inovação, criar condições para que ideias promissoras encontrem aplicações que gerem impacto real. É nessa travessia que a tecnologia deixa de ser promessa e se torna transformação.

 

¹Gartner é uma empresa global de pesquisa e consultoria em tecnologia da informação.
² Allium é uma empresa especializada em análise de dados de blockchain
 

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